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Produzir mais e receber menos: o desafio da gestão financeira na suinocultura em 2026

1 de set.
6 min de leitura

A produção brasileira de suínos deve crescer, mas os preços reais e o valor da produção podem recuar. Diante desse cenário, controlar custos, eliminar gargalos e proteger o caixa tornam-se prioridades dentro da granja.


Produzir 9,29% mais e, ainda assim, registrar uma redução de 10,10% no valor produzido parece uma contradição, entretanto, esse é o movimento projetado para a suinocultura brasileira em 2026.

O relatório publicado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, CNA, e pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, Cepea, apresenta as seguintes projeções para suínos de corte:

  • Crescimento de 9,29% na quantidade produzida;

  • Redução de 17,74% nos preços reais;

  • Queda de 10,10% no valor bruto da produção.

Os dados comparam 2026 com 2025 e foram calculados com as informações disponíveis até março. Portanto, representam uma projeção setorial, que poderá ser alterada conforme o comportamento da produção, do consumo, das exportações e dos preços ao longo do ano. Fonte: Cepea/USP e CNA, agosto de 2026.


Por que produzir mais pode gerar menos valor?


O resultado pode ser explicado pela relação entre quantidade e preço. Se a produção cresce 9,29%, mas os preços reais diminuem 17,74%, a expansão do volume não é suficiente para compensar a desvalorização.

Para facilitar a compreensão, considere uma simulação em que produção, preço e valor possuem índice 100 em 2025:

Indicador

2025

Projeção para 2026

Quantidade produzida

100,00

109,29

Preço real

100,00

82,26

Valor da produção

100,00

89,90

A simulação não representa um preço específico pago ao produtor, ela demonstra proporcionalmente o efeito das variações projetadas pela CNA e pelo Cepea.

O relatório relaciona a redução dos preços ao menor ritmo da demanda doméstica no início do ano, à menor procura da indústria por animais para abate e à manutenção da oferta.

Em sentido contrário, as exportações brasileiras de carne suína registraram volumes recordes nos primeiros meses de 2026, impulsionadas principalmente por mercados como Filipinas, Japão e China. Esse desempenho oferece uma perspectiva positiva, mas ainda não garante recuperação imediata dos preços em todas as regiões.


O preço vem do mercado, mas o resultado começa dentro da granja


O produtor não consegue definir sozinho o preço recebido, entretanto, possui capacidade de atuar sobre custos, produtividade, investimentos, desperdícios e organização financeira. Quando os preços diminuem, cada ineficiência ganha maior peso no resultado.

Uma tarefa mal distribuída, um equipamento desregulado, uma conta não analisada ou um lote com desempenho inferior pode consumir uma parte significativa da margem. Por isso, o momento exige olhar para dentro da granja e responder:

  • Quanto realmente custa produzir cada suíno?

  • Qual é a margem obtida por lote?

  • Quais despesas estão aumentando?

  • Onde existem perdas e desperdícios?

  • Quanto os financiamentos comprometem o caixa?

  • A estrutura de mão de obra está adequada?

  • Os investimentos estão gerando retorno?

  • A granja possui recursos para enfrentar uma redução de receita?


Essas respostas dependem de gestão financeira.


Gestão financeira é mais do que registrar despesas


Registrar entradas e saídas é importante, mas não é suficiente. A gestão financeira precisa transformar os registros em informações que orientem decisões. O produtor deve saber não apenas quanto gastou, mas onde gastou, por que gastou e qual resultado foi gerado.

Na suinocultura integrada, a análise deve considerar:

  • Remuneração recebida por animal;

  • Bonificações e descontos;

  • Energia elétrica;

  • Água;

  • Mão de obra;

  • Manutenção;

  • Medicamentos e materiais de uso próprio;

  • Mortalidade;

  • Depreciação das instalações;

  • Juros e parcelas dos financiamentos;

  • Retiradas dos proprietários.


Na produção independente, também devem ser incluídos alimentação, aquisição dos animais, medicamentos, transporte e comercialização. O objetivo é calcular quanto permanece depois que todos os custos da atividade são considerados.


A mão de obra está dimensionada corretamente?


A folha de pagamento não deve ser analisada apenas pelo valor mensal.

O gestor precisa acompanhar:


  • Custo da mão de obra por suíno;

  • Gastos com horas extras;

  • Tempo destinado ao retrabalho;

  • Períodos de ociosidade;

  • Atividades que poderiam ser automatizadas;

  • Dependência excessiva de determinadas pessoas.


Se os indicadores demonstrarem excesso de horas ou pessoas em relação à necessidade operacional, pode ser necessário reorganizar horários, redistribuir tarefas, combinar funções ou automatizar processos.

Se, mesmo após essas mudanças, a estrutura continuar maior do que a necessidade da granja, o redimensionamento da equipe pode ser necessário.

Essa decisão deve ser planejada, baseada em dados e realizada com responsabilidade. Uma redução inadequada pode aumentar falhas de manejo, mortalidade, problemas sanitários e desgaste da equipe.

O objetivo não é simplesmente trabalhar com menos pessoas, é elevar a produtividade por hora trabalhada sem comprometer a produção.


A energia precisa ser medida por suíno


O valor total da conta de energia não demonstra, sozinho, se o consumo está adequado. Se a granja alojou mais animais, enfrentou temperaturas extremas ou aumentou a produção, é natural que o consumo total apresente variação.

A análise deve considerar:

  • Quilowatts-hora por animal alojado;

  • Custo de energia por suíno entregue;

  • Consumo por galpão;

  • Horários de maior demanda;

  • Desempenho de motores e equipamentos;

  • Diferenças entre lotes e períodos equivalentes.


As oportunidades de redução podem estar na manutenção de ventiladores, exaustores, aquecedores, bombas, motores, sensores e sistemas de iluminação. Também devem ser avaliados o isolamento térmico, as entradas de ar, a regulagem dos controladores e a modalidade tarifária contratada.

A economia não pode comprometer ventilação, temperatura ou bem-estar animal. Reduzir energia inadequadamente pode diminuir o desempenho e aumentar a mortalidade, produzindo uma falsa economia.


Ração e água também representam dinheiro


Na produção independente, a alimentação possui grande participação no custo. Nos sistemas integrados, o desperdício de ração também prejudica os indicadores técnicos e pode afetar a remuneração.

A granja deve observar:

  • Regulagem dos comedouros;

  • Ração acumulada no chão;

  • Vazamentos em silos e tubulações;

  • Umidade durante o armazenamento;

  • Presença de roedores e aves;

  • Diferenças de consumo entre baias;

  • Conversão alimentar;

  • Desuniformidade dos lotes.


O consumo de água também precisa ser medido. Vazamentos, pressão inadequada e bebedouros desregulados aumentam o consumo e o volume de dejetos. Isso pode elevar despesas com bombas, energia, armazenamento e distribuição dos dejetos.


Mortalidade é uma perda técnica e financeira


Cada animal perdido já consumiu recursos. Antes de morrer, recebeu alimentação, água, energia, instalações, manejo e horas de trabalho. Por isso, a mortalidade deve ser convertida em valor financeiro.

A propriedade precisa registrar:

  • Fase em que ocorreu a perda;

  • Causa provável;

  • Peso ou idade do animal;

  • Galpão ou baia;

  • Frequência do problema;

  • Custo estimado das perdas.


O mesmo raciocínio vale para baixo ganho de peso, desuniformidade e aumento do número de dias até a saída. Calcular o impacto financeiro ajuda a definir quais problemas técnicos precisam receber prioridade.


Manutenção preventiva protege o caixa


A manutenção realizada somente depois da falha costuma ser mais cara e imprevisível. Uma pane em ventiladores, sistemas de alimentação, bombas, sensores ou controladores pode comprometer rapidamente o lote.

A propriedade deve comparar:

  • Valor gasto com manutenção preventiva;

  • Valor gasto com manutenção corretiva;

  • Número de falhas por lote;

  • Tempo de equipamento parado;

  • Perdas produtivas provocadas pelas falhas.

Uma peça substituída de maneira planejada pode custar menos do que uma emergência durante o lote.


Reduzir custos não significa cortar tudo


Em momentos de margens menores, a redução de despesas precisa seguir uma ordem. Primeiro, devem ser eliminados desperdícios e retrabalhos. Depois, podem ser renegociados contratos, reorganizadas atividades e avaliadas despesas que não contribuem diretamente para o resultado.

Mudanças estruturais, como redução da equipe ou adiamento de investimentos, exigem uma análise mais cuidadosa.

Algumas despesas não devem ser reduzidas sem avaliação técnica:

  • Biosseguridade;

  • Ventilação;

  • Fornecimento de água;

  • Manutenção essencial;

  • Bem-estar animal;

  • Treinamento da equipe;

  • Monitoramento sanitário.


Um corte que aumenta mortalidade, reduz ganho de peso ou compromete a sanidade não representa economia. A pergunta correta não é apenas “quanto podemos cortar?”. A pergunta deve ser “quanto essa decisão melhora a margem por suíno sem comprometer o desempenho?”.


Investimentos precisam demonstrar retorno


Antes de comprar equipamentos, ampliar instalações ou contratar novos financiamentos, o produtor precisa analisar:

  • Valor total do investimento;

  • Economia mensal esperada;

  • Aumento previsto de produtividade;

  • Prazo necessário para recuperar o capital;

  • Valor das parcelas;

  • Impacto no fluxo de caixa;

  • Custo de manutenção;

  • Capacidade de pagamento em um cenário desfavorável.


A tecnologia precisa resolver um gargalo comprovado. Comprar um equipamento moderno sem conhecer o custo atual do problema pode criar uma nova despesa sem entregar o retorno esperado.


A granja precisa trabalhar com cenários


Diante da possibilidade de preços menores, o planejamento financeiro deve considerar pelo menos três situações:

  1. Cenário esperado: produção, custos e remuneração dentro do previsto.

  2. Cenário conservador: redução da receita e aumento moderado das despesas.

  3. Cenário crítico: queda mais intensa da remuneração, mortalidade maior ou manutenção inesperada.

Para cada situação, o produtor precisa saber se conseguirá pagar mão de obra, energia, manutenção, financiamentos e demais compromissos. Essa simulação permite antecipar problemas e tomar decisões antes que o dinheiro falte.


O desafio não será apenas produzir mais


A expansão da produção demonstra a capacidade da suinocultura brasileira. Porém, quando o crescimento da oferta acontece em um ambiente de preços menores, a eficiência financeira torna-se decisiva.

A propriedade mais preparada não será necessariamente aquela que alojar ou entregar o maior número de animais. Será aquela que conhecer seu custo, controlar o caixa, eliminar desperdícios, avaliar investimentos e transformar produtividade em margem. O produtor não controla sozinho o preço recebido, mas pode administrar praticamente tudo o que acontece dentro da granja.

Quando a margem diminui, a gestão financeira deixa de ser apenas uma ferramenta de controle e passa a ser uma condição para a continuidade da atividade.


Sobre a MAG’UP

A MAG’UP desenvolve treinamentos, mentorias e soluções práticas para apoiar propriedades suinícolas na organização financeira, análise de custos, acompanhamento de indicadores e identificação de gargalos produtivos.


Fontes

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