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A safra recorde vai baratear o café? A resposta não cabe em uma xícara

2 de out.
3 min de leitura

Fonte: AgroAdvence, 2023.
Fonte: AgroAdvence, 2023.

O Brasil está colhendo café como nunca, mas isso não significa que o preço na prateleira cairá na mesma proporção, nem no mesmo ritmo. A diferença entre o recorde no campo e a conta no supermercado ajuda a entender como produtividade, clima, exportações e custos se combinam antes de chegar à xícara.

Com 99% da área colhida, a produção brasileira de 2026 foi estimada em 67,6 milhões de sacas de 60 quilos, alta de 19,6% sobre 2025 e o maior resultado da série histórica da Companhia Nacional de Abastecimento. Segundo o 3º levantamento da Conab, publicado em 24 de setembro de 2026, a área em produção avançou 5,1%, para 1,95 milhão de hectares, enquanto a produtividade média subiu 13,8%, de 30,4 para 34,6 sacas por hectare.

Esse detalhe importa: A expansão da colheita não veio apenas de mais área. A Conab associa o desempenho à bienalidade positiva do arábica, às condições climáticas mais favoráveis e ao uso crescente de tecnologia no manejo. O arábica alcançou 48,2 milhões de sacas, 34,8% acima de 2025. Já o conilon foi estimado em 19,4 milhões, recuo de 6,6%. Portanto, chamar o ano de “recorde” não significa que todas as regiões, espécies ou produtores viveram a mesma realidade.


Da lavoura à prateleira existe uma cadeia inteira


O preço do café moído recuou 1,86% no IPCA de agosto de 2026, conforme o IBGE, em divulgação de 10 de setembro. É um sinal de alívio, mas deve ser lido com perspectiva. Em março de 2025, o produto acumulava alta de 77,78% em 12 meses, movimento que o IBGE relacionou, em 11 de abril de 2025, ao encarecimento internacional e à redução da oferta provocada por problemas climáticos no Vietnã e no Brasil.

Fonte: AgroAdvence, 2023.
Fonte: AgroAdvence, 2023.

Uma safra maior pode pressionar o preço do grão para baixo, mas o pacote no varejo carrega outras camadas. Há café comprado em contratos anteriores, estoques formados a preços mais altos, custos de beneficiamento, torrefação e moagem, embalagem, energia, frete, câmbio, distribuição, impostos e margens comerciais. Cada elo ajusta preços em tempos diferentes. Por isso, a transmissão entre lavoura e consumidor raramente é imediata ou integral.


Oferta maior encontra demanda, exportações e estoques


Fonte: Procampo, 2019.
Fonte: Procampo, 2019.

O mercado externo acrescenta outra peça: O Brasil exportou 3,8 milhões de sacas em agosto de 2026, maior volume já registrado para o mês e 43,2% acima de agosto de 2025. No acumulado de janeiro a agosto, porém, os embarques somaram 24,6 milhões de sacas, queda de 6,6% na comparação anual, segundo dados do MDIC reunidos pela Conab em 24 de setembro. Um mês recorde, portanto, não apaga sozinho a trajetória do ano.

No cenário mundial, a produção de 2026/27 foi projetada em 189,7 milhões de sacas, alta de 6,1%, enquanto o consumo pode chegar a 179,7 milhões, crescimento de 3,6%. A própria Conab avalia que a entrada das safras brasileira, vietnamita e colombiana pressiona as cotações, mas não aponta redução expressiva: os estoques continuam baixos, a demanda cresce e o risco de El Niño pode afetar novas colheitas.


O que esse cenário pede de quem decide


Para o consumidor, a mensagem é de cautela: quedas mensais podem aparecer, mas não há base para prometer uma volta rápida aos preços antigos. Comparar marcas, tipos, peso das embalagens e preço por quilo continua sendo mais útil do que esperar uma redução automática.

Para produtores e empresas, safra recorde não é sinônimo de margem recorde. Mais volume pode vir acompanhado de cotações menores, custos elevados ou qualidade desigual. O momento pede controle do custo por saca, planejamento de caixa, estratégia de venda, acompanhamento do câmbio, atenção à qualidade e avaliação criteriosa de contratos.

Projeção condicional: se a oferta mundial prevista se confirmar e o clima colaborar, a pressão de baixa poderá continuar. Se o El Niño comprometer a próxima safra, os estoques seguirem apertados ou a demanda surpreender, a redução tende a ser limitada. A resposta, portanto, não está apenas no tamanho da colheita. Está na capacidade de interpretar o mercado antes de decidir.


Chamada para ação

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