Mulheres no agronegócio: reconhecimento precisa se transformar em participação e decisão
Atualizado: 26 de ago.
O ano de 2026 foi declarado pela ONU (Organização das Nações Unidas) como o Ano Internacional da Mulher Agricultora. A iniciativa reconhece a contribuição das mulheres para a produção de alimentos, a segurança alimentar, o desenvolvimento rural e a sustentabilidade dos sistemas agroalimentares. É um reconhecimento necessário, mas também precisa ser entendido como um convite à ação.
As mulheres sempre estiveram presentes no campo. Participam da produção, do cuidado com animais, da administração da propriedade, da comercialização, da organização familiar e de atividades que garantem o funcionamento cotidiano do negócio rural. O desafio é fazer com que essa presença também seja acompanhada por autonomia, renda, formação e poder de decisão.
Reconhecer é importante, mas não é suficiente

Valorizar as mulheres rurais não pode se limitar a homenagens em datas comemorativas. Encontros, campanhas e mensagens de reconhecimento são importantes porque fortalecem a autoestima e tornam visível uma contribuição frequentemente pouco reconhecida. Entretanto, o avanço real acontece quando essa valorização produz mudanças na vida cotidiana. FAO, página oficial do Ano Internacional da Mulher Agricultora 2026.
Isso significa permitir que as mulheres tenham acesso às informações financeiras, participem do planejamento, conheçam os resultados, desenvolvam projetos próprios e estejam presentes nas decisões da propriedade e das organizações.
A pergunta não deve ser apenas “quanto as mulheres ajudam?”. É necessário perguntar “de quais decisões elas participam?”.
O trabalho que não aparece nos registros

Em muitas propriedades, a mulher participa diariamente das atividades, mas seu trabalho é registrado apenas como ajuda. Ela cuida de documentos, controla pagamentos, alimenta animais, acompanha a produção, organiza compras, atende fornecedores e mantém parte importante da rotina familiar. Mesmo assim, pode não conhecer totalmente as receitas, os custos, as dívidas ou os investimentos do negócio.
Quando o trabalho não é reconhecido economicamente, torna-se mais difícil construir autonomia. Reconhecimento também significa dar nom
e às responsabilidades, registrar as atividades realizadas e incluir a mulher nas conversas sobre patrimônio, renda e futuro.
Participação também melhora a gestão
A ampliação da participação feminina não deve ser apresentada somente como uma questão de justiça. Segundo a FAO, reduzir as diferenças de produtividade e remuneração entre homens e mulheres nos sistemas agroalimentares poderia aumentar o PIB mundial em aproximadamente US$ 1 trilhão e reduzir a insegurança alimentar de 45 milhões de pessoas.
Esses números são projeções globais, mas ajudam a demonstrar que a exclusão também produz perdas econômicas. FAO, 19 de março de 2026.
Quando diferentes pessoas participam das decisões, a organização amplia sua capacidade de perceber riscos, compreender necessidades e construir alternativas. Isso não significa que mulheres pensem todas da mesma maneira, significa que experiências importantes deixam de permanecer fora da conversa.
O papel das famílias, cooperativas e empresas
Dentro das famílias, o primeiro passo pode ser simples: compartilhar informações. Receitas, despesas, financiamentos, contratos e planos de investimento precisam ser compreendidos por quem participa do trabalho e será afetado pelas decisões.
As cooperativas podem criar programas permanentes de formação, núcleos femininos, mentorias e caminhos para que mais mulheres assumam funções de liderança. Empresas e entidades podem contratar mulheres como técnicas, consultoras e facilitadoras, apoiar redes de negócios e incluir critérios de participação em seus projetos.
O Ministério da Agricultura também estruturou, em 2026, uma Câmara Temática de Mulheres Rurais. A proposta inclui participação na governança, inclusão produtiva, sustentabilidade e ampliação de mercados. O desafio será transformar as discussões em iniciativas que cheguem efetivamente às diferentes realidades do campo. Ministério da Agricultura, Câmara Temática de Mulheres Rurais.

Da homenagem ao protagonismo
O Ano Internacional da Mulher Agricultora cria visibilidade. O legado dependerá do que famílias, cooperativas, empresas e instituições farão com essa atenção. O avanço acontecerá quando mais mulheres puderem conhecer os números, administrar recursos, desenvolver projetos, ocupar espaços de liderança e decidir sobre o futuro das propriedades e organizações.
Valorizar é reconhecer a história. Desenvolver é oferecer conhecimento e oportunidades. Incluir é permitir participação verdadeira. O protagonismo começa quando a mulher deixa de ser chamada apenas para executar e passa a participar da construção das decisões.
Chamada para ação
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