Entre filhos e pais: quem cuida de quem cuida?
A geração sanduíche concilia trabalho e responsabilidades com diferentes gerações da família. Dividir tarefas e reconhecer limites são pontos importantes nessa organização.

Em uma mesma semana, pode ser preciso acompanhar a mãe a uma consulta, resolver uma dificuldade do filho, trabalhar e organizar as contas da casa. Entre uma necessidade e outra, os próprios planos vão ficando para depois.
Essa rotina ajuda a compreender a chamada geração sanduíche, formada por pessoas que apoiam gerações mais novas e mais velhas ao mesmo tempo. Ela convida a uma pergunta: quando todos precisam de você, ainda sobra espaço para cuidar da própria vida?
Um cuidado que atravessa gerações
O tema ganhou destaque em reportagem da Exame, publicada em 14 de outubro, com informações do estudo Tsunami Prateado 2026, do Data8. Segundo a cobertura, sete em cada dez brasileiros com mais de 50 anos são responsáveis por alguém ou cuidam de outra pessoa. Esse indicador abrange diferentes relações familiares. Não significa que todos cuidem simultaneamente dos filhos e dos pais. Fonte: Exame, 14/10/2026, com dados atribuídos ao Data8.
A experiência pode reunir apoio financeiro, acompanhamento e tarefas cotidianas. Nesta reportagem, o foco é a sobreposição das responsabilidades com filhos e pais, sem restringir essa realidade a uma idade específica.
Quem organiza também precisa aparecer na divisão
Uma conversa sobre cuidado precisa incluir o trabalho de planejar. Quem agenda a consulta, acompanha os retornos, organiza documentos e percebe o que está faltando? Se todas essas decisões continuam com a mesma pessoa, a distribuição permanece incompleta.

A desigualdade aparece nos dados nacionais. Em 2022, as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e/ou ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicaram 11,7 horas. O levantamento do IBGE trata dessas atividades em geral, não especificamente da geração sanduíche. Fonte: IBGE, Estatísticas de Gênero, dados de 2022.
Por isso, vale discutir quem assume cada responsabilidade do começo ao fim. Resolver uma tarefa inclui lembrar dela, organizar o necessário e acompanhar sua conclusão.
O descanso de quem cuida precisa entrar no planejamento
Em encontro promovido pelo TRF1 em julho de 2026, a psicóloga Marina Veloso Evangelista destacou a importância do descanso, do lazer e da manutenção da saúde do cuidador. Também apontou o compartilhamento das responsabilidades entre familiares, amigos e profissionais como caminho para reduzir a sobrecarga. Fonte: TRF1, 14/07/2026.
Na prática, reservar um período de descanso exige combinar quem estará disponível naquele horário. O mesmo vale para uma consulta do cuidador, uma atividade pessoal ou um compromisso de trabalho. A organização precisa incluir essas necessidades.
Quando o sofrimento ou o cansaço persistem e prejudicam a rotina, procurar uma equipe de saúde pode ajudar a avaliar a situação e as possibilidades de apoio.
Um desafio que também envolve organizações e serviços públicos
Para empresas e cooperativas, a pauta merece espaço nas conversas sobre gestão de pessoas. Esclarecer os canais de apoio e avaliar alternativas de organização da rotina, conforme as regras aplicáveis, são possibilidades a discutir sem exigir exposição da vida familiar.

O cuidado também integra uma agenda pública. A Lei nº 15.069, de 23 de dezembro de 2024, instituiu a Política Nacional de Cuidados e reconheceu o direito a ser cuidado, a cuidar e ao autocuidado, com responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, setor privado e sociedade civil. Fonte: Lei nº 15.069/2024, artigos 1º e 2º.
Preparar o futuro começa antes da urgência
Nas projeções do IBGE divulgadas em 2024, a participação das pessoas com 60 anos ou mais passou de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023 e poderá chegar a 37,8% em 2070. É um cenário demográfico, não uma estimativa de quantas pessoas precisarão de cuidadores. Fonte: IBGE, Projeções da População, revisão 2024.
Para as famílias, esse contexto reforça a importância de conversar antecipadamente sobre preferências, recursos e responsabilidades. Uma pergunta pode abrir o diálogo: o que cada um consegue assumir para que o cuidado seja compartilhado de verdade?
Sobre a MAG’UP
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