Carne suína até 2035: o mercado cresce, mas a margem não vem pronta

Em agosto de 2026, o Brasil exportou 131,126 mil toneladas de carne suína, 8% acima do mesmo mês de 2025. A receita, porém, caiu 1,7%. O retrato mensal não resume toda a atividade, mas expõe uma pergunta que merece entrar na rotina de produtores, cooperativas e agroindústrias: crescer em volume está gerando valor na mesma proporção?
No acumulado de janeiro a agosto, o desempenho permaneceu positivo. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal, o país superou 1 milhão de toneladas exportadas, com avanço de 8,9% no volume e de 4,8% na receita. Ainda assim, a diferença entre esses ritmos mostra por que tonelagem, faturamento e margem precisam ser acompanhados separadamente. Associação Brasileira de Proteína Animal. Exportações de carne suína crescem 8% em agosto.
O mercado mundial continuará crescendo, mas em velocidades diferentes
O relatório OECD-FAO Agricultural Outlook 2026–2035, publicado em 29 de junho de 2026, projeta aumento de 12% no consumo mundial de carnes até 2035. A carne suína participa desse movimento, mas com crescimento mais moderado: 6 milhões de toneladas adicionais, equivalentes a 4% sobre a média de 2023–2025.
As aves devem avançar 20% e concentrar cerca de dois terços do consumo adicional de carnes. Na carne suína, a média global por pessoa pode recuar aproximadamente 4%. Isso não significa queda absoluta da demanda, pois a população aumenta. Significa que a expansão não será uniforme e que diferentes proteínas disputarão renda, preferência e espaço no prato.
Há uma oportunidade regional. Na América Latina, a projeção é de aumento de cerca de 1,2 kg de carne suína por pessoa ao ano até 2035, apoiado pela competitividade de preço diante da carne bovina. Ao mesmo tempo, a China busca ampliar sua autossuficiência, o que tende a reduzir sua dependência de importações. Para o Brasil, diversificar destinos deixa de ser uma frase institucional e passa a ser proteção comercial. OECD/FAO. OECD-FAO Agricultural Outlook 2026–2035.


Pressão sobre preços muda a conversa dentro da granja
A OCDE e a FAO projetam que, em termos reais, os preços internacionais de referência da carne suína e de aves fiquem por volta de 20% abaixo da média de 2023–2025 em 2035. O cenário considera ganhos de produtividade, melhor conversão alimentar, ciclos mais curtos e capacidade de resposta mais rápida da oferta.
Essa é uma projeção, não uma promessa de preço. Doenças, câmbio, custo de grãos, energia, clima e barreiras comerciais podem alterar o caminho. Mesmo assim, a mensagem de gestão é clara: se o preço não fizer todo o trabalho, a margem terá de ser construída dentro do sistema produtivo e ao longo da cadeia.
O próprio desempenho brasileiro ajuda a visualizar essa dinâmica. Entre janeiro e julho de 2026, as exportações de carne suína in natura bateram recorde de volume e valor. O volume cresceu 7,5%, mas o preço médio caiu 2,2%, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária. Houve forte avanço das vendas ao Japão e redução relevante para a China. Mercado não é um destino fixo. É uma carteira em movimento. OECD/FAO. Capítulo “Meat”.
Quatro decisões para proteger competitividade
1. Gerir margem por lote, não apenas produção total: Conversão alimentar, mortalidade, ganho de peso, dias de alojamento, energia, medicamentos e bonificações precisam conversar com o resultado econômico. Um indicador produtivo pode melhorar sem que a margem acompanhe.
2. Trabalhar cenários de preço e custo: O orçamento deve responder a perguntas simples: o que acontece se o milho subir, se o preço do suíno recuar ou se a produtividade ficar abaixo da meta? Simulações antecipadas ajudam a definir gatilhos de compra, venda e investimento.
3. Diversificar canais e requisitos: A granja não escolhe o país de destino, mas pode fortalecer os atributos que ampliam as opções da cooperativa ou da agroindústria: regularidade, sanidade, padronização, registros e cumprimento de protocolos.
4. Investir com prioridade: Automação, ambiência, alimentação de precisão e monitoramento podem elevar eficiência, mas o retorno depende da escala, do custo do capital e da capacidade da equipe. Tecnologia útil é a que resolve um gargalo mensurável.
Competitividade se constrói antes do embarque
O Brasil deve permanecer, ao lado da União Europeia e dos Estados Unidos, entre os maiores exportadores de carnes até 2035. Essa posição abre oportunidades, mas não distribui margem automaticamente entre todos os elos.
A interpretação mais prudente é também a mais prática: haverá demanda, porém ela será disputada. Quem conhece o próprio custo, reage cedo aos desvios, desenvolve pessoas e trabalha com mais de um cenário transforma uma projeção distante em decisões melhores hoje. O futuro da carne suína não depende apenas de quanto o mercado crescerá, depende de quanto valor cada sistema conseguirá preservar enquanto cresce.
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