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Brasil entre guerras e potências: como a nova ordem mundial já afeta o país

24 de set.
6 min de leitura

Fonte: O Globo, 2026.
Fonte: O Globo, 2026.

Durante décadas, a expressão “nova ordem mundial” pareceu pertencer aos livros de história ou aos discursos diplomáticos. Em setembro de 2026, ela ganhou um significado mais concreto. A Assembleia Geral das Nações Unidas reúne líderes em Nova York enquanto a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã pressiona a energia, o conflito entre Rússia e Ucrânia ultrapassa quatro anos e Estados Unidos e China tentam administrar uma rivalidade que alcança comércio, tecnologia, Taiwan e segurança.

O Brasil não está fora desse tabuleiro. Pode não participar diretamente das guerras, mas sente seus efeitos no preço do diesel, no custo dos fertilizantes, nas exportações de alimentos, no câmbio, nos juros e nas escolhas diplomáticas.


Uma instituição criada para impedir outra guerra mundial


A Organização das Nações Unidas nasceu em 1945, após a devastação da Segunda Guerra Mundial. Seu Conselho de Segurança continua formado por cinco membros permanentes com poder de veto, China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia, além de dez integrantes temporários. A estrutura está registrada pela própria ONU.

O problema é que três dos cinco membros permanentes estão diretamente envolvidos ou profundamente ligados aos conflitos que dominam a agenda atual. Rússia participa da guerra contra a Ucrânia. Estados Unidos estão envolvidos no conflito com o Irã e são o principal aliado de Israel. China, por sua vez, tornou-se o maior contraponto estratégico aos norte-americanos.

Esse desenho ajuda a explicar por que o Conselho de Segurança enfrenta dificuldades para construir respostas coletivas. A instituição criada para evitar grandes guerras continua indispensável, mas sua capacidade de ação é limitada quando os interesses das potências entram em choque.

O Brasil defende há anos uma reforma desse sistema. O argumento é que a composição permanente ainda reflete o equilíbrio de poder de 1945, não o mundo atual. A reivindicação ganhou novo peso porque América Latina e África permanecem sem representação permanente, embora concentrem parcela relevante dos países e da população mundial.

Há também um componente histórico. Desde 1949, o Brasil tradicionalmente abre o Debate Geral da Assembleia da ONU, segundo registro do governo brasileiro. Em 22 de setembro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou esse espaço para criticar o imobilismo internacional, defender o multilateralismo e rejeitar interferências externas no processo eleitoral brasileiro. Segundo a Reuters, Lula afirmou que o Brasil não é “quintal de ninguém” e defendeu cooperação internacional em lugar de intervenção.


A guerra distante chega pelo tanque e pela lavoura


O efeito econômico mais visível dos conflitos ocorre na energia. O Oriente Médio respondeu por aproximadamente 30% da produção mundial de petróleo em 2024, enquanto cerca de 34% do comércio global de petróleo bruto passou pelo Estreito de Ormuz em 2025. Os dados constam do Relatório de Política Monetária do Banco Central, de junho de 2026.

O Brasil aparece em uma posição contraditória. É exportador líquido de petróleo, mas continua dependente de derivados importados, especialmente diesel. Em 2025, exportou US$ 56 bilhões em petróleo e derivados e importou US$ 31 bilhões, gerando superávit de US$ 25 bilhões. O Banco Central calculou que uma alta de 10% nos preços internacionais poderia, mantidas as demais condições, melhorar esse saldo em cerca de US$ 2,5 bilhões ao ano.

Essa é apenas metade da história. O mesmo petróleo valorizado que aumenta a receita das exportações encarece o diesel consumido por caminhões, máquinas agrícolas e indústrias. Em setembro de 2026, a diferença entre o preço internacional do diesel e o valor praticado pela Petrobras atingiu nível recorde, levando importadores independentes a adiar compras. A Reuters informou que o país atende internamente cerca de 75% da demanda e depende de importações para a parcela restante.

Portanto, um conflito pode melhorar a balança comercial brasileira e, ao mesmo tempo, pressionar custos, inflação e margens. Não existe um único “Brasil vencedor” ou “Brasil perdedor”. Existem setores, regiões e famílias expostos de maneiras diferentes.

Fonte: ICONO, 2026.
Fonte: ICONO, 2026.

Fertilizantes expõem uma vulnerabilidade estratégica


O caso dos fertilizantes é ainda mais sensível. Mais de 80% do volume utilizado no Brasil vem do exterior. Em 2025, as importações somaram US$ 15,5 bilhões. A Rússia respondeu por 25,9% desse valor, a China por 18,8% e o Oriente Médio por 14,5%, conforme o Banco Central.

Nos nitrogenados, produzidos com forte participação do gás natural, a exposição é maior. O Oriente Médio forneceu 22% dos nitrogenados importados pelo Brasil em 2025. Após o início do conflito, o preço de referência da ureia entregue no país subiu 50% em maio, comparado à média de janeiro e fevereiro. O fosfato aumentou 29,7% e o potássio, 9,7%.

O Banco Central avaliou que grande parte dos insumos da safra de 2026 já havia sido comprada antes do choque. O risco mais relevante aparece na safra de 2027, caso a guerra, os entraves logísticos e os preços elevados persistam. Trata-se de uma projeção condicionada à duração do conflito, não de uma perda já confirmada.


O Oriente Médio também compra do Brasil


A região não é apenas fornecedora de petróleo e fertilizantes. Em 2025, comprou US$ 16,1 bilhões em produtos brasileiros, equivalentes a 4,6% das exportações totais do país. Sua importância é muito maior para algumas cadeias: recebeu 34,9% das exportações brasileiras de carne de aves, 32,4% das vendas externas de milho e 16,9% das de açúcar.

No trimestre encerrado em maio de 2026, já sob impacto do conflito, as exportações brasileiras para a região caíram 18% em relação ao mesmo período de 2025, uma redução de aproximadamente US$ 600 milhões. O impacto agregado ainda era limitado, mas a concentração setorial exige atenção. Uma interrupção logística prolongada pode ser pequena para o comércio exterior total e, ao mesmo tempo, muito relevante para produtores, cooperativas e indústrias específicas.


Entre Estados Unidos e China, o Brasil precisa evitar escolhas simplistas


Enquanto a ONU discute as guerras, Donald Trump e Xi Jinping administram a disputa entre as duas maiores potências econômicas. Em 23 de setembro, representantes dos dois países anunciaram a extensão da trégua comercial por dois meses, até 10 de janeiro de 2027, segundo a Reuters.

Para o Brasil, qualquer alteração nessa relação produz oportunidades e riscos. A China comprou US$ 55,22 bilhões em produtos do agronegócio brasileiro em 2025, aproximadamente um terço das vendas externas do setor. Somente a soja respondeu por US$ 34,5 bilhões e as carnes, por US$ 9,82 bilhões, conforme dados governamentais citados pela Reuters.

Quando China e Estados Unidos elevam tarifas um contra o outro, produtos brasileiros podem ganhar espaço. Quando negociam compras de soja, carnes ou aeronaves norte-americanas, parte dos fluxos pode ser redirecionada. Isso não significa que um acordo entre as potências seja necessariamente ruim para o Brasil. A redução da tensão tende a favorecer o comércio e a previsibilidade global. O ponto é que a dependência excessiva de poucos mercados aumenta a vulnerabilidade.

O próprio Ministério da Agricultura reconhece a dependência do agronegócio em relação ao mercado chinês como fator de risco e recomenda diversificação de destinos, agregação de valor, melhoria logística e maior autonomia na produção de insumos.

Fonte: (Foto: Imagem produzida por ChatGPT/Gazeta do Povo, 2026.)
Fonte: (Foto: Imagem produzida por ChatGPT/Gazeta do Povo, 2026.)

O que o Brasil tenta construir


Fato: o Brasil mantém relações econômicas profundas com a China, negocia com os Estados Unidos, integra os BRICS, participa do G20 e defende uma ONU reformada. Também sustenta que a guerra na Ucrânia deve terminar por meio de uma paz justa e duradoura, alinhada à Carta das Nações Unidas, posição registrada em declaração conjunta do Itamaraty em julho de 2026.

Interpretação: a estratégia brasileira procura preservar autonomia, dialogando com diferentes polos sem aderir integralmente a nenhum deles. Essa posição pode ampliar o espaço diplomático e comercial do país, mas exige coerência. Defender o direito internacional apenas quando ele favorece um parceiro reduziria a credibilidade brasileira.

Projeção: se a rivalidade entre os blocos se aprofundar, o Brasil será pressionado a tomar posições mais claras em comércio, tecnologia, defesa, energia e dados. Quanto maior a polarização, menor o espaço para ambiguidades.


Geopolítica também é gestão


Para empresas, cooperativas, propriedades rurais e lideranças, a principal lição não é tentar prever cada decisão de Washington, Pequim ou Moscou. É reduzir a dependência de uma única alternativa.

Isso significa conhecer a origem dos insumos, acompanhar custos de energia e frete, simular variações de câmbio, diversificar fornecedores, avaliar mercados alternativos e preservar capacidade financeira para enfrentar choques. Também significa distinguir fatos de discursos políticos e evitar decisões movidas apenas por manchetes.

O Brasil tem ativos importantes: produz alimentos e energia, possui escala territorial, biodiversidade, relações com diferentes blocos e tradição diplomática. Mas também carrega vulnerabilidades em fertilizantes, diesel, tecnologia, infraestrutura e concentração de mercados.

A nova ordem mundial ainda não está pronta. Ela está sendo disputada. Para o Brasil, o desafio não é escolher apressadamente um lado, mas transformar autonomia diplomática em resiliência econômica, capacidade produtiva e decisões melhores dentro do país.

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